E se o seu propósito for esse afinal?
- Elaine Zanol
- 6 de mar.
- 5 min de leitura

Era quinta-feira, dia 26 de fevereiro (há uma semana atrás, para ser mais exata) e era para eu estar dormindo. Tenho sido regrada com os meus horários para dormir/acordar há uns seis meses e confesso que, por mais que eu tenha dito por anos que era uma pessoa noturna, fazer isso tem me feito muito bem de muitas maneiras.
Só que nesse dia em questão, eu estava inquieta a tarde toda. O Marcelo ainda estava na empresa e eu segui um impulso que parecia maior do que eu mesma. Eu criei esse blog!
É engraçado pensar que eu comecei no digital em 2008 seguindo o mesmo impulso. Na época os blogs estavam no auge e assim como estou fazendo agora, eram usados como diários. Dezoito anos se passaram e entre tantas idas e vindas, tantas redes sociais, aqui estou novamente...
A verdade é que, por mais que eu tenha seguido esse "impulso" somente agora, ele voltou inúmeras vezes nos últimos anos. Não só ele, como a vontade de criar um canal no YouTube e me aventurar pelo mundo das artes plásticas.
Você tem algo que não consegue não fazer independente das circunstâncias? Não aquilo que você gostaria de fazer se tivesse mais tempo, dinheiro ou menos responsabilidades. Aquilo que você faz ou pensa frequentemente em fazer mesmo quando a sua vida parece caótica?
Pois bem... isso se chama entusiasmo. E você não deveria ignorá-lo.
O entusiasmo é diferente da empolgação. Enquanto a empolgação depende de um estímulo externo pra aparecer, o entusiasmo simplesmente volta — sem pedir licença, sem precisar de gatilho. Você não entende o motivo, só sente que aquela ideia voltou.
E se o entusiasmo for a bússola que tanto buscamos para saber qual caminho escolher? E se não tivermos que escolher, mas apenas reconhecer o que já existe em nós?
Tenho refletido muito sobre o tema ultimamente. Mas, o grande problema, é saber distinguir o entusiasmo entre tantas camadas de crenças impregnadas. Tantos "tem que" que seguimos a risca quando somos adultos.
Em 2023, por algum motivo (ou crise dos 30), eu comecei a questionar todas as minhas escohas pessoais e profissionais. Posso dizer que esse foi um dos piores anos da minha vida. Lembro que meu espaço de beleza estava crescendo muito – e rápido. O faturamento aumentava, assim como a equipe, enquanto eu me sentia cada vez mais vazia.
Foi estranho perceber isso. Porque eu tinha construído algo que, durante muito tempo, fez sentido. Não havia um grande desastre. Não havia um motivo óbvio que justificasse o incômodo. E talvez tenha sido justamente isso que mais me confundiu. Como admitir insatisfação quando, tecnicamente, tanta coisa estava dando certo? Como explicar o vazio quando a vida, vista de fora, parecia finalmente entrar nos eixos?
Nesse ano, eu parei de atender, contratei mais profissionais e me tornei mentora. Foram três anos intensos equilibrando o negócio físico e digital. Foram centenas de alunas e muito aprendizado. Não me arrependo, nem por um minuto, de tudo que fiz.
Mas... o incômodo não passou. E com ele a vontade de me expressar nas redes sociais sem performar, juntamente com a vontade de criar um blog, um canal, ser artista, nada disso ficou para trás.
Em outubro do ano passado, vendi meu espaço e encerrei a empresa no digital. No mesmo mês, eu comecei a trabalhar com o Marcelo (meu noivo) , e isso também mexeu muito comigo. Porque, de certa forma, foi um respiro. Da área da beleza/estética para esquadrias e construção, foi uma mudança e tanto.
E eu acho importante dizer isso porque não era como se eu estivesse infeliz com tudo. Não era esse o ponto. Eu me sentia feliz em muitos momentos, empolgada com várias coisas, envolvida de verdade no que estava e estou vivendo.
Mas, ao mesmo tempo, eu ainda estava meio perdida. E talvez essa tenha sido uma das partes mais confusas de tudo, porque quando a gente está mal de um jeito muito óbvio, pelo menos existe um motivo para apontar. Existe um rompimento claro, uma dor escancarada, alguma coisa que justifica a crise.
O mais difícil, pra mim, foi perceber que mesmo vivendo coisas boas, mesmo estando em um contexto que fazia sentido, mesmo me sentindo grata, ainda tinha alguma coisa em mim procurando resposta. Como se eu tivesse mudado de cenário, de rotina, de função, de fase, mas ainda não tivesse conseguido me encontrar por inteiro dentro de nada daquilo.
E eu acho que por muito tempo tentei resolver isso mentalmente. Tentei entender, encaixar, nomear, organizar. Só que algumas coisas não se resolvem no grito da lógica. Algumas coisas ficam voltando. E foi isso que eu comecei a observar mais.
Certas vontades não iam embora. A vontade de escrever voltava. A vontade de criar um espaço meu voltava. A vontade de me expressar sem ficar pensando em algoritmo, em posicionamento, em o que esperam de mim, também voltava. A vontade de fazer arte voltava. E voltava de um jeito muito específico, porque não era euforia, não era uma ideia aleatória que parecia legal por cinco minutos e depois sumia. Era diferente. Era quase como se tivesse uma parte minha tentando me lembrar, o tempo todo, de alguma coisa que eu ainda não tinha conseguido escutar direito.
Tem uma ideia do Bashar que ficou martelando na minha cabeça nos últimos tempos, que é a de seguir o seu maior entusiasmo disponível naquele momento. E eu sei que isso pode soar simples demais, até meio abstrato, mas quanto mais eu penso, mais sentido faz. Porque talvez o entusiasmo não seja só uma emoção bonitinha ou uma empolgação passageira. Talvez ele seja uma pista.
Não necessariamente do destino final, porque eu nem sei se acredito mais muito nisso de um destino final fechado e pronto, mas pelo menos de direção. De verdade. De vida. De alguma coisa em nós que está tentando continuar viva apesar de todas as camadas que a gente foi criando para ser adulta, coerente, funcional, aceita.
Hoje eu acho que minha confusão por muito tempo foi essa: eu estava tentando encontrar respostas definitivas, quando talvez o que eu precisava fazer era prestar atenção no que continuava voltando. Não no que parecia mais lógico.
Talvez seja isso que eu esteja tentando fazer agora.
Talvez criar esse blog tenha menos a ver com começar alguma coisa nova e mais a ver com parar de ignorar uma parte de mim que já estava pedindo espaço há muito tempo.
E talvez a reflexão que fica, pelo menos para mim nesse momento, seja essa: e se nem tudo que importa na nossa vida vier em forma de certeza? E se algumas das respostas que a gente procura não aparecerem como clareza imediata, mas como repetição? Como uma vontade que volta, uma ideia que insiste, uma sensação de “tem alguma coisa aqui” que simplesmente não vai embora?
Talvez amadurecer também seja isso. Não ter todas as respostas, mas começar a levar a sério aquilo que continua nos chamando, mesmo quando a gente ainda não entende completamente por quê.


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