Quando foi que os nossos sonhos mudaram?
- Elaine Zanol
- 16 de mar.
- 5 min de leitura
Você já se questionou se aquilo que você diz que quer é, de fato, o que você deseja? Tem uma diferença brutal entre querer uma coisa e ter sido treinada para desejar ela. Perceber isso a partir dessa pergunta, mudou completamente o rumo da minha vida.

Como eu sempre tive facilidade para aprender e executar algo novo, por muito tempo, acreditei que desejar era algo muito simples. Eu confundia esse ânimo com direção e bastava ter um insight, uma ideia ou me identificar com um caminho que logo eu já transformava ele em meta e seguia em frente.
Fiz isso tantas vezes... Fiz faculdade de ciência da computação, me formei em biomedicina com foco em estética, fui maquiadora, designer, micropigmentadora, gestora e mentora, entre tantas outras versões que eu escolhi ser. Mas, com o tempo, comecei a perceber que nem todo desejo nasce de dentro da gente. Alguns nascem da necessidade de pertencimento, da validação e, às vezes, até do medo de ficar para trás.
É exatamente nesse momento que tudo começa a ficar desconfortável. Não porque você mudou de ideia, recomeçou ou teve tantas versões mas porque notou que o desejo estava muito mais conectado com a vontade de se sentir suficiente do que a felicidade em alcançar as conquistas.
Admitir isso não é fácil e mexe com a imagem que você construiu sobre si mesma. Mexe com todas aquelas metas que pareciam tão claras e principalmente, mexe com objetivos e até sonhos que você defendia com tanta convicção.
Só que, depois que essa pergunta aparece de verdade, ela começa a reorganizar tudo: isso que eu estou perseguindo nasceu em mim ou foi instalado em mim?
Texto que citei no vídeo:
"Existe um momento curioso na vida adulta em que começamos a perceber que aquilo que acreditávamos sobre nós mesmas já não se encaixa tão perfeitamente quanto antes. Durante muito tempo, a identidade parece algo relativamente estável: você acredita que é um certo tipo de pessoa, que tem determinados sonhos, que caminha em uma direção clara.
Aos vinte anos, por exemplo, é comum sentir que existe uma versão de você mesma lá no futuro esperando para ser alcançada , uma versão que já está definida, que já tem forma, e que depende apenas de esforço, escolhas corretas e tempo para se concretizar. Mas a vida tem um jeito muito peculiar de desafiar essa ideia de linearidade. Em algum momento, geralmente depois de experiências suficientes, de sucessos, de frustrações, de encontros inesperados e de mudanças internas silenciosas, começamos a perceber que aquilo que acreditávamos ser não é necessariamente quem continuamos sendo.
E é nesse ponto que algo interessante acontece. Não é exatamente uma crise, pelo menos não no sentido dramático da palavra, mas é mais como uma sensação sutil de deslocamento interno. Você olha para si mesma e percebe que certas coisas que antes pareciam essenciais já não têm o mesmo peso. Algumas ambições se transformam, algumas certezas desaparecem, e novas perguntas começam a surgir no lugar delas.
Talvez você tenha passado anos acreditando que sua vida seguiria um determinado caminho (profissional, emocional, espiritual ) e, de repente, percebe que existe uma parte sua que não quer exatamente aquilo da mesma forma. Não porque houve um erro, ou porque as escolhas anteriores foram equivocadas, mas porque a própria pessoa que fez aquelas escolhas já não é exatamente a mesma.
Aos trinta e poucos anos, muitas mulheres começam a viver esse tipo de revisão interna. Existe uma expectativa social de que nessa fase a vida já esteja relativamente definida, de que a identidade esteja consolidada, de que as escolhas já tenham sido feitas e agora resta apenas aprofundá-las. Mas, na prática, muitas pessoas descobrem que esse período da vida é justamente um momento de reavaliação profunda. É quando você começa a perguntar coisas que talvez nunca tenha tido tempo ou coragem de perguntar antes. Quem eu sou hoje, de verdade? O que ainda faz sentido para mim? E talvez a pergunta mais desconcertante de todas: será que eu realmente me conheço tanto quanto achava que conhecia?
Existe algo muito honesto nesse processo, embora ele nem sempre seja confortável. Porque perceber que você mudou implica também aceitar que a versão anterior de você mesma já não existe exatamente da mesma forma. E, às vezes, isso gera um sentimento estranho de transição, como se você estivesse entre duas versões de si mesma: já não completamente aquela que foi, mas ainda descobrindo quem está se tornando. Esse espaço intermediário pode parecer confuso à primeira vista, mas ele também é extremamente fértil. É nesse lugar que novas ideias surgem, novos interesses aparecem e novas formas de enxergar a própria vida começam a se desenhar.
Talvez uma das descobertas mais interessantes dessa fase seja perceber que os sonhos também mudam. Não necessariamente desaparecem, mas se transformam. Aquilo que antes parecia essencial pode perder importância, enquanto outras coisas, que antes eram apenas curiosidades ou interesses periféricos, começam a ganhar um espaço inesperado dentro de você.
Às vezes, inclusive, antigos desejos retornam de formas diferentes, como se estivessem esperando o momento certo para reaparecer. É curioso perceber como certos impulsos criativos, certas vontades de expressão ou certas perguntas existenciais podem permanecer silenciosamente presentes durante anos, até que finalmente encontrem espaço para se manifestar.
E talvez o ponto mais interessante de tudo isso seja perceber que mudar não significa se perder. Pelo contrário. Muitas vezes, mudar significa justamente se aproximar de uma versão mais autêntica de si mesma. Durante muito tempo, grande parte das escolhas que fazemos é influenciada por expectativas externas, por ideias sobre sucesso, por modelos de vida que parecem fazer sentido no momento. Mas com o passar dos anos, algo dentro de nós começa a pedir mais honestidade. Começamos a perceber que viver de forma realmente coerente exige uma certa disposição para revisar nossas próprias narrativas sobre quem somos.
Talvez seja por isso que tantas pessoas nessa fase da vida começam a se interessar mais por reflexão, por autoconhecimento e por conversas mais profundas sobre identidade e propósito. Não porque estejam necessariamente em crise, mas porque estão, pela primeira vez, olhando para si mesmas com um pouco mais de liberdade.
Existe algo muito poderoso em admitir que ainda estamos em processo de descoberta. Em vez de enxergar isso como falta de direção, talvez possamos começar a ver como uma forma de maturidade. Afinal, a vida não é um projeto que precisa ser concluído o mais rápido possível. Ela é um processo contínuo de transformação, onde cada fase revela novas camadas de quem somos.
Talvez a pergunta mais interessante, então, não seja mais “quem eu deveria ser”, mas algo muito mais aberto e honesto: quem eu estou me tornando agora? E, talvez ainda mais importante, o que dentro de mim está tentando nascer nesse momento da minha vida?
Essa pode ser uma das perguntas mais honestas que podemos nos fazer em algum momento da vida adulta. Não para entrar em uma crise ou abandonar tudo de uma vez, mas para começar a olhar com mais cuidado para aquilo que estamos perseguindo.
Porque, quando essa pergunta aparece de verdade, ela muda a forma como você enxerga muitas coisas. Metas, planos, sonhos e até versões de si mesma que pareciam tão sólidas começam a ser revisitadas. Algumas permanecem, outras se transformam e algumas simplesmente deixam de fazer sentido. E tudo bem.
Crescer tem muito mais a ver com esse processo de revisão do que com a ideia de seguir sempre em frente sem olhar para trás. Amadurecer é justamente ter coragem de perceber que certos desejos não nasceram em você, eles apenas encontraram espaço enquanto você ainda estava tentando descobrir quem era.
E então a pergunta volta, mas de um jeito diferente:
isso que eu estou perseguindo nasceu em mim…ou apenas encontrou um lugar em mim?
Em algum momento da vida, a pergunta mais importante deixa de ser “o que eu deveria querer?” e passa a ser algo muito mais simples e muito mais difícil ao mesmo tempo: o que em mim está tentando nascer agora?


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